quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O resto da minha vida

Hoje eu sei o momento em que o resto da minha vida começou. Desde criança imaginei que seria no dia do meu casamento ou mesmo no primeiro beijo com o amor da minha vida. O casamento acabou, o amor recomeçou. Mas o resto da minha vida começou com cheiro de éter e hospital, noites mal dormidas, um suspense que era tão nítido que podia-se comer de colher. Foi o dia em que tudo mudou pra mim, pro meu irmão e pra minha mãe. O dia que ela decidiu, por vontade própria e por ironia do destino, entrar em um centro cirúrgico e ali tudo mudar. Quantas vezes a ouvi dizer "antes eu tivesse morrido". Pois é mãe, não morreu. Não houve morte do corpo, mas quebra do espírito. 
A vida gosta de contar piadas sem graça. Gosta de rir da cara da gente, sem dente. A vida é uma banguela gargalhando.
Minha mãe era a pessoa que mais amava o que fazia. Ao contrário do meu pai que amava não fazer nada e era muito bom nisso, minha mãe amava a sua profissão, amava seus empregos (no plural pois nunca foi um só), amava estar presente aonde quer que estivesse. Nunca passou batido, sempre entre brigas e discussões. Era uma enfermeira competente e compenetrada. Aplicada. Dedicada.
Pois veja, a vida, a colocou dependente das mesmas profissionais que um dia ela foi. E hoje não se reconhece mais. Quantas vezes fomos na perícia do trabalho e ela pedia pra não se aposentar. Imagine, uma enfermeira tetraplégica. Ela tinha esperança que tudo aquilo não passaria de um pesadelo e um dia ela acordaria e tudo voltaria a ser como antes. Nunca voltou. O resto da sua vida tinha começado.
E o da minha também.

 

fim de ano

  Estou cansada. Acho que todo final de ano a gente fica um pouco cansado e um pouco de saco cheio da vida. Não sei se acredito na numerolog...